Arte na Cibercultura

A REVOLUÇÃO DA ARTE
A arte ou aquilo que entendemos como arte tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos.
O século XX trouxe uma nova forma de sensibilidade estética. Podemos considerar como marco fundamental uma pintura datada de 1907 de Pablo Picasso: “Las Señoritas de Aviñon”.
“A pluralidade da representação converter-se-ia no eixo de desenvolvimento da nova arte, da multiplicidade de propostas expressivas e movimentos que escalonaram o devir do século XX.” A experiência de vida tinha mudado e impunham-se novos valores estéticos. Dispersão, pluralidade, descontinuidade e fragmentação marcam a arte. O mundo ocidental contemporâneo é marcado pela experiência da técnica. A publicidade e os meios de comunicação de massas emergem. Toda a velocidade que caracteriza este novo mundo marcado pela industrialização traz consigo inúmeras (r)evoluções. A fotografia vem possibilitar uma nova forma de dar corpo às imagens. “A representação visual emancipa-se da habilidade ou destreza manual, sobre a qual se articulava o privilégio hierárquico das artes.” Assim, os poderes e atributos tradicionais da arte entraram em discussão. Le Corbusier considerava a era da máquina como via para uma nova forma de arte.
Foi no início da Modernidade, que se constituiu a noção clássica de arte: de um lado estava a arte, a obra artística e o artista e, do outro, estava o artefacto e o artesão. Essa concepção de arte culminou no século XVII com a formação de um sistema integrado, o das “Belas Artes”.
No entanto, a segunda Revolução Industrial no século XIX e a consequente expansão da técnica alteram profundamente essa situação. Assiste-se a uma crescente interposição da técnica.
O objecto primordial da arte passa a ser a cultura e particularmente os produtos e procedimentos da técnica. Assiste-se a uma dessacralização ou secularização da arte. Surge também a tendência para converter a arte em mais um objecto de consumo.
“O impacto da técnica moderna na cultura é o ponto de referência na transformação contemporânea da arte”. E, desde os anos 60 assiste-se a um novo horizonte tecnológico que caracterizamos de revolução electrónica. A tecnologia electrónica permite acumular e transmitir informação dando origem à máquina pensante.
Torna-se viável uma nova união arte-técnica em que as figuras do artista e do engenheiro se sobrepõem. Os suportes tecnológicos vão contribuir para um processo de transformação dos elementos tradicionais da experiência artística. Podemos desta forma afirmar estarmos a assistir a uma metamorfose da arte. As novas técnicas operam sobre a luz e a informação o que implica “uma tendência para a desmaterialização do objecto, ou, sendo mais precisos, à aparição de novas formas de materialidade.”
Foi, apesar de tudo, a informática ou cibernética que operou uma autêntica revolução com as novas vias abertas nas telecomunicações, na arte do computador e na realidade virtual. Estamos perante um território novo de experiência estética: a arte digital. Atenda-se que esta pressupõe uma matematização da percepção e da representação, uma vez que o suporte da obra pasa a ser numérico, matemático. “É muito comum que os artistas que trabalham com as novas tecnologias falem de «imaterialidade»”. As imagens geradas por computador não têm uma realidade física mas são novas formas de materialidade. “São entidades numéricas, computacionais, e por isso materiais, no mesmo sentido em que o são as operações do cérebro.”
Outro aspecto importante, é o facto de que a tecnologia digital não altera apenas o estatuto do objecto artístico mas também as relações entre o produtor e o receptor. “Uma das características mais constantes da ciberarte é a participação nas obras daqueles que as apreciam, interpretam, exploram ou lêem.” Tal como afirma Umberto Eco, o processo criativo na arte não termina no momento em que o «artista» dá por terminada a obra. O computador propicia a acção, a modificação daquilo que se recebe. A ideia de interacção é que se apresenta como extraordinária no campo artístico! A proposta artística deixa de ser um produto enclausurado para se converter num ponto de partida, aberto ao estímulo mútuo e à intervenção dos sujeitos que dela se aproximam. “A obra virual é «aberta» pela construção.” Mas também “as novas tecnologias comportam toda uma série de inovações perceptivas e cognitivas que requerem uma informação ou aprendizagem por parte dos receptores para serem plenamente compreendidas e assimiladas.”
“A arte foi sempre, na nossa tradição, realidade virtual: produção de mundos possíveis, alternativos ao mundo existente, material. E sempre procurou a incidência dessa realidade alternativa na vida e na sensibilidade dos seres humanos de carne e osso. Essa é a grande aposta que tem diante de si a hoje nascente arte digital.”


ARTE NA REDE
“Na era das redes electrónicas, a especificidade temporal do estético atinge o seu plano mais enigmático e mais complexo.”
O desenvolvimento da arte na rede vem provar que os artistas se contam entre as primeiras pessoas a utilizar novos media e que os tornaram perceptíveis a algo mais do que um uso utilitário e funcional. A worlwideweb passou a ser um instrumento de expressão artística.
Desde o seu princípio, inúmeras homepages competiam com cor, som e movimento quanto possível de forma a se evidenciarem. As primeiras instituições a adquirirem um site na rede foram os museus e galerias. Mas, a arte na rede desde este ponto de vista não seria mais do que um sistema de distribuição para o mercado da arte. A verdadeira natureza da rede é a de agir como um fórum para a memória e imaginação colectivas praticada em tempo real. A Rede viabiliza as promessas da Realidade Virtual. “Enquanto todos os suportes de informação do passado são suportes de memória (livros, cassetes, discos, filmes, vídeos, fotografias), as principais tecnologias dos sistemas de informação actuais são suportes de processamento, isto é, inteligência.”
Uma parte considerável da arte concebida e proposta on-line acabou por substituir a fixação no «objecto» por actividades centradas no processamento. “Enquanto as actividades artísticas tradicionais se destinavam a provocar reacções cognitivas e emocionais através do uso de objectos ou de performances espectaculares, a arte na Rede situa, por assim dizer, os efeitos antes da causa, e dirige-se directamente à cognição, no processo interactivo que faz de cada utilizador um colaborador no processo artístico.” A arte tecnológica está colocada no horizonte da categoria de «interactividade». “A nova categoria põe em causa os cânones estéticos, os clássicos, mas também os românticos e os vanguardistas(…). A omnipresença da «interactividade» é acompanhada da crise das categorias estéticas, sofrendo com isso o «idealismo» estético um abalo intenso, mas necessário.” A noção de «arte na Rede» ganha consistência na medida em que a própria rede é o material principal para a forma artística.
As artes «interactivas» iniciaram-se «fora dos museus», em festivais de design, de arte electrónica. Assim, os autores da interactividade consideram as artes anteriores como estáticas pois baseavam-se na «representação». Para estes, “as obras de arte interactivas (…) são máquinas virtuais que produzem instâncias de representação baseadas em inputs em tempo real.”
Derrick de kerckhove distingue duas qualidades estéticas específicas das comunicações interactivas: a webness e o metadesign.
Webness é um termo forjado pelos jurados da secção de arte na Rede na edição de 1995 do Prémio Ars Electrónica. Significa interconectar inteligências humanas vivas através de interfaces colectivos, intencionalmente construídos para inovações e descobertas autocorrectivas.
“Em arte, Webness significa que a forma artística usa a Rede de acordo com as suas propriedades interactivas, e não unicamente como um meio de promover um conteúdo.”
Metadesign, por sua vez, é o tipo de design que coloca nas nossas mãos os instrumentos, em vez do objecto de design. Os melhores sistemas interactivos não são aqueles que definem o processo, mas aqueles que definem as condições para o processo de interacção. Quanto mais instrumentos se encontrarem nas mãos do utilizador para formatar, especificar e controlar a interacção, mais interactivo se torna.
A arte da Rede é a arte da forma de pensamento colectiva, alucinação partilhada para alguns, verdadeira experiência para outros. No entanto, poderíamos afirmar haver interactividade nas formas de arte «anteriores» mesmo que essa se pudesse definir por um grau «zero» como fundamenta Barthes. Nesse sentido a grande inovação “reside basicamente na visibilização da «interactividade» através da tecnologia.
Com a arte da Rede surgem novas abordagens ao design, surgindo conceitos como design sensorial que nos permitem obter uma amostra de gostos colectivos conforme as interacções que se estabelecem com a Rede.
No entanto, deve-se ter em atenção a emergência de possíveis problemas de identidade. Podem-se criar ambientes em que tudo é virtual à excepção das pessoas que se encontram neles que são «reais». O facto de se ter agora tornado possível acrescentar experiências virtuais através de comunicações on-line não deve fazer-nos esquecer que a principal característica da comunicação on-line é a realidade e a relevãncia direccionada.




WEBART
Ao contrário do que sugere a ideia de media art, não se trata de saber se a arte pode utilizar outros meios, outras materialidades e outros suportes como os pixéis, o ecrãn ou o rato do computador, mas sim, se essas condições não alteram o espaço em que movia a arte.
Antes de questionarmos a web art mostra-se pertinente questionarmos se podemos unir arte e espaço cibernético. Poderão conviver estes dois conceitos? Será possível uma ciberarte?
Lev Manovich afirma que não há espaço no ciberespaço mas, fundamentalmente, bases de dados. Assim, o ciberespaço precisa de simular, através de interfaces construídas, um ambiente, envolvimento ou mundo que permita aceder a essas bases de dados. Desta forma o ciberespaço poder-nos-á aparecer como um não espaço. Manovich afirma haver apenas trajectórias no ciberespaço. Visitar um site —entrar e sair— é a operação permanente de navegação.
Visitar é assim “uma percepção em movimento (…) que segue os desafios das interfaces multi-sensoriais que vamos encontrando no caminho.” Assim, é a transformação da percepção que pode afectar os destinos da arte. O cérebro é, aliás, o último interface e será a partir dele que se pode «criar a realidade» interactiva. Deste modo, temos como obrigação ter um pensamento estético relativamente à injunção entre o dispositivo técnico e a sensibilidade. Relativamente ao que podemos considerar como arte, Myron Krueger afirmou «começo a ver o interface como uma forma de arte, e inesperadamente vejo-me a mim próprio como um artista». É, aliás, do interface que depende toda a obra interactiva, e que esta é acima de tudo um trabalho de visualização.
A interactividade depende do número e tipo de interfaces que produzem a obra de arte.
“De facto são as tecnologias das redes, da RV, do hipermédia, que constituem a «obra» em si mesma, tudo o mais são actualizações.” Como afirma Zielinsky: “os interfaces têm de ser interactivos e empáticos ou mesmo biociberneticamente interactivos, isto é, têm de organizar algo de vivo no interior do circuito fechado”.
WebArt é uma palavra, que embora, nos suscite algum entusiasmo surge associada a um número díspar de coisas infindáveis. No entanto, é ao design de páginas web que surge na maioria das vezes associada. “Actividade aparentemente pouco digna da tal riqueza questionante que a palavra nos parece oferecer.” A rápida categorização do termo WebArt poderá dever-se à rápida fascinação dos artistas pela internet, por uma tecnologia que abre o campo das ligações. Abrem-se assim novos territórios no mundo e uma desmultiplicação da realidade. Para se criarem algumas dessas realidades surgiram sistemas de programação como o VRML — Virtual Reality Modeling Language — que permite recompôr toda uma porção de espaço real através de fotografias que poderá ser manipulado tridimensionalmente no computador. É uma linguagem de modelização de objectos em três dimensões que depois de colocados em rede podem ser manipulados em casa à vontade pelo navegador da rede digital. “O VRML começou também a ser aproveitado recentemente por artistas da web para criarem obras que podem ser manipuladas à vontade pelos utilizadores no seu computador pessoal. São verdadeiras obras abertas cujas múltiplas versões podem até nunca ter sido visualizadas ou antecipadas pelo próprio artista.”
O que há de novo na WebArt “é a maneira como trabalham o «espaço», que verdadeiramente é a sua «unidade» de intervenção.”
“Os géneros próprios da cibercultura são muito diversos: composições automáticas de partituras ou de textos, música «techno» (…), sistemas de vida artificial ou robôs autónomos, mundos virtuais, sites na Web com a intenção de intervenção estética ou cultural, hipermédia, (…), hibridações diversas do «real» e do «virtual», instalações interactivas, etc.” Segundo afirma Ascott o além está agora aqui no ciberespaço. A técnica tomou conta dos atributos teológicos.
Podemos assim afirmar que o mundo virtual que caracteriza a cibercultura é uma “reserva digital de virtualidades sensoriais e informativas que só se actualizam através da sua interacção com os seres humanos.” A WorldWideWeb é um mundo virtual que favorece a inteligência colectiva. Segundo Pierre Levy podem-se distinguir dois grandes tipos de mundos virtuais:
«off line», os que são limitados e editados e «on line», os que são acessíveis por rede e indefinidamente abertos à interacção, à transformação e à ligação com outros mundos virtuais.

Data / Autor

2004-06-26 / Edgar Afonso




Bibliografia

CRUZ, MARIA TERESA, Arte e Espaço Cibernético, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, Junho de 2002.

GIANETTI, CLAUDIA, Ars Telemática ? telecomunicação, internet e ciberespaço, Relógio d?Água editores, Lisboa, 1998.

GODINHO, JACINTO, Welcome to Webart, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, Junho de 2002.

JIMÉNEZ, JOSÉ, A Revolução da arte electrónica, in Real vs Virtual, Revista de Comunicação e Linguagens, 25?26, organização de José Bragança de Miranda, edições Cosmos, 1998.

KERCKHOVE, DERRICK DE, A Pele da Cultura, Relógio d?Água editores, Março de 1997.

KERCKHOVE, DERRICK DE, Arte na Rede e Comunidades Virtuais, in Real vs Virtual, Revista de Comunicação e Linguagens, 25?26, organização de José Bragança de Miranda, edições Cosmos, 1998.

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ROSA, JORGE LEANDRO, Mutações da temporalidade estética, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, Junho de 2002.




Notas

Jiménez, José, A Revolução da arte electrónica, in Real vs Virtual, Revista de Comunicação e Linguagens, 25—26, organização de José Bragança de Miranda, edições Cosmos, 1998, p 47.
Idem, p 49.
Idem, p 52.
Idem, p 53.
Jiménez, José, A Revolução da arte electrónica, Real vs Virtual, p. 55.
Idem, p. 55.
Levy, Pierre, Cibercultura, Stória editores, lda, 2000, p. 142.
Idem, p. 142.
Jiménez, José, A Revolução da arte electrónica, p 57.
Idem, p 58.
Rosa, Jorge Leandro, Mutações da temporalidade estética, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d’Água editores, lda, Junho de 2002, p 177.
Kerckhove, Derrick, Arte na Rede e Comunidades Virtuais, in Real vs Virtual, Revista de Comunicação e Linguagens, 25—26, organização de José Bragança de Miranda, edições Cosmos, 1998, p 64.
Idem, p 64.
Miranda, José Bragança de, A instauração das artes interactivas, in Ars Telemática – telecomunicação, internet e ciberespaço”, Relógio d’Água editores, Lisboa, 1998. p. 189.
Idem, p 191.
Kerckhove, Derrick, Arte na Rede e Comunidades Virtuais, p 65.
Cruz, Maria Teresa, Arte e Espaço Cibernético, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d’Água editores, lda, Junho de 2002, p 153.
Miranda, José Bragança de, A instauração das artes interactivas, in Ars Telemática – telecomunicação, internet e ciberespaço”, Relógio d’Água editores, Lisboa, 1998. p. 199.
Godinho, Jacinto, Welcome to Webart, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d’Água editores, lda, Junho de 2002, p 156.
Godinho, Jacinto, Welcome to Webart, p 158.
Miranda, José Bragança de, A instauração das artes interactivas, in Ars Telemática – telecomunicação, internet e ciberespaço”, Relógio d’Água editores, Lisboa, 1998. p. 202.
Levy, Pierre, op cit., p. 141.
Idem, p. 153.