O Poder do Pixel

Nesta breve dissertação que nos foi proposto desenvolver relativamente ao poder do pixel, deparam-se-me inúmeras dificuldades no que diz respeito ao modo como tratar o assunto e desenvolvê-lo sem cair em contradições. Assim, comecei por fazer algum trabalho de pesquisa, lendo alguns textos, excertos de livros, ou de páginas web bem como algumas entrevistas a designers. Desta primeira fase, comecei a compreender a complexidade do tema a abordar e da necessidade de me focar em algo que me parecesse útil do ponto de vista de estudante de design. Assim, aquilo que procurei fazer, mais do que encontrar certezas, foi explorar algumas questões pertinentes relativamente às possibilidades e limitações do pixel.

"Tipografia é a anotação e arranjo mecânico da linguagem." segundo palavras de Phil Baines. Assim, não existe um momento em que a tipografia adquire um carácter mecânico, essa característica está intrínseca à própria tipografia. Deste ponto de vista, podemos supôr que o computador não é algo de novo mas uma mais valia à prensa de Guttemberg. Simplesmente veio facilitar a criação e manipulação da tipografia. Com o advento do computador assiste-se a uma democratização tipográfica. "As tecnologias digitais introduzidas em finais dos anos 80 não alteraram apenas as condições em que a tipografia era desenhada e distribuída mas também alteraram dramaticamente as circunstâncias em que a tipografia era usada" Eye, Digitak type decade, Emily King. No entanto, essa democratização veio levantar problemas de vária ordem, podendo até falarmos de uma profanização e mau uso da tipografia. Assim, urge ao designer a tarefa de compreender estas novas possibilidades e saber usá-las criativa e apropriadamente.Cf. Making digital type good As possibilidades do computador de hoje são completamente distintas das do primeiro computador. E, o desenvolvimento da tipografia digital assume hoje um carácter que não tinha quando surgiram os primeiros computadores. As tipografias aparentavam um carácter grosseiro devido às fracas resoluções de ecran. Um pixel no ecran era um ponto bem marcado e identificável. Este, ainda hoje continua a existir nos nossos ecrans de computador, mas infimamente mais pequeno que nos primeiros. Importa então assumir o pixel como uma unidade definida através da qual nos é transmitida informação visual relativamente ao computador.

A criação de tipografia para ecran, terá então tido como alicerce o pixel aparentando de início um carácter "tecnológico". O software Adobe's Postscript Type I veio contribuir para uma evolução no desenho da tipografia digital. A tipografia passou a assumir as suas formas primitivas e deixou de estar de certa forma limitada às possibilidades formais do pixel. Matthew Carter só após ter desenhado a fonte em bitmap é que a contornava com linha vectorial à sua volta. Este seu método, foi designado de "baico para cima" por Andrew Boag da Boag Associates. Assim, considerava importante o método em sentido contrário (de cima para baixo) que consistia em abordar as tipografias tradicionais para uso em ecran. Torna-se evidente uma preocupação na forma como a tipografia deveria ser criada, a partir do ecran ou a partir do que já existia, as tipografias para impressão. Era necessário visualizar a tipografia no ecran dos computadores, mas seria ela legível em diferentes suportes, teriam de haver fontes diferentes para cada suporte ou seria possível encontrar harmonia entre tais diferenças?

Segundo o meu ponto de vista, parece-me que o pixel tem importância na medida em que nos permite visualizar algo de forma imediata antes de partirmos para a impressão mas parece ter bastantes limitações na medida em que poderá constrangir o uso tipográfico para impressão. A linguagem vectorial, sustentada em cálculos matemáticos veio contornar as aparentes limitações do pixel, dando força ao pixel relativamente à sua tarefa de possibilitar a visualização dos resultados de tais formulas matemáticas. Como nos diz Zuzanna Licko, "as fonts outline têm um maior grau de flexibilidade do que as fonts para ecran." Esta afirmação de Zuzana Licko poderá levar-nos a considerar que o ecran e o pixel apenas limitam. E, o pixel poderá limitar, mas parece-me que o seu carácter libertador não deve ser desvalorizado. O computador e o pixel, sem dúvida alguma, veio, mais do que nos limitar, possibilitar e libertar de inúmeros constrangimentos. Segundo os designers Buro Destruct, "trabalhar com máquinas é libertador". "Foi apenas com o advento do computador que encontramos divertimento em criar fontes", dizem.

Apesar de muitos designers se servirem do pixel apenas como forma de visualização de informação gráfica, há outros que, por seu lado, aproveitaram as suas limitações como fonte de inspiração do seu trabalho. Trabalho este, muitas vezes destinado apenas a ecrãn. Os designers eBoy, considerados como celebridades da arte do pixel, exploram as suas possibilidades até ao infinito, desde a tipografia até ilustrações, passando por inúmeras experiências gráficas assumidamente assentes na estrutura do pixel. No entanto, a linguagem vectorial não lhes é aversa como afirmam "Somos três tipos a trabalhar em conjunto nos pixels aqui em Berlim e o Peter a trabalhar em vectores em Nova York." E, se realmente observarmos o trabalho deste grupo de design, apercebemo-nos da forma inteligente e coerente com que abordam a problemática e possibilidades libertadoras do pixel. Uma opção inteligente e inovadora que, renova a forma como o pixel é observado. Apesar de não serem os únicos designers a debruçarem-se sobre este tipo de trabalho, são um exemplo bastante claro do poder libertador do pixel.

Tal como aconteceu com o industrialismo, e nos afirmou Eric Gill "um industrialismo que, realmente se complete, terá muitas características admiráveis e nobres.", também se pode dizer relativamente ao pixel. O poder reside na forma inteligente com que é trabalhado. Não o podemos dissociar até da forma mais rudimentar de desenhar e escrever com lápis e papel. "Para nós, desenhar e pintar é uma forma de pesquisa - a pesquisa que é provavelmente pré-condicional a todas as formas de trabalho criativo", dizem os designers da Buro Destruct. O pixel deve também ser explorado e pesquisado, mesmo com uma abordagem rudimentar do ponto de vista tecnológico. Só de uma pesquisa profunda, poderão surgir inovações quer técnicas, quer conceptuais relativamente às inúmeras possibilidades dessa unidade gráfica. Esta não deverá ser observada como um todo mas como uma parte de um todo com o seu valor próprio no design! Tal como nos diz Eric Gill, "...a racionalidade, (...), continua a ser o principal ingrediente da receita para a feitura de coisas belas."

Embora esta minha breve abordagem ao tema proposto, não apresente em si inovação a nível científico, esteve sempre presente a ânsia de procurar expôr algumas ideias relativas ao poder criativo do pixel no processo de design tendo em conta algumas das suas limitações. Este trabalho foi-me útil, não apenas pelo que escrevi mas também pelo processo de pesquisa que esteve na sua origem. Espero assim ter respondido minimamente à proposta que nos foi lançada.

Data / Autor

2003-12-12 / Edgar Afonso




Bibliografia

BOB GORDON, Making Digital type look good, Bob Gordon, Thames & Hudson, London, 2001.

BURO DESTRUCT II, Die Gestalten Verlag, Berlin, 2003.

ERIC GILL, Ensaio sobre tipografia, ed. Almedina, Coimbra, 2003.

www.setpixel.com, Eboy Interview, June 18, 2001.

www.publiclettering.org.uk, Phil Baines & Catherine Dixon.




Notas

N/D