Tecnologia, Cultura e Tipografia

A cultura contemporânea pode caracterizar-se muito pela tecnologia. O aparecimento da electricidade e consequente desenvolvimento tecnológico veio dar novo rumo à cultura. E, o design acaba por ser influenciado por esta, mesmo que não seja por outra razão além do facto dos designers viverem num determinado meio com determinados valores. Vivemos num mundo agitado por uma complexidade cada vez maior e, onde os valores aparentam mudar todas as semanas. Na área do design gráfico, o desenvolvimento tecnológico e a influência da cultura denotam-se fortemente na tipografia, na sua construção e no seu uso.

Além do computador, as modas, e a cultura das pessoas os aspectos com maior influência na criação e uso de tipografias actuais. Nestes últimos anos, a tipografia e o design têm sido influenciados, directa ou indirectamente, consciente ou inconscientemente, por vários conceitos dependendo de certas ideias em voga.

Nesta era do computador pessoal, de software de criação de fontes e de paginação, a tipografia ganhou uma fluidez e uma facilidade de manipulação inimaginável há poucos anos atrás. A tipografia deixou de estar exclusivamente dependente dos especialistas para passar a fazer parte do trabalho de um simples designer gráfico. Por um lado, os mais tradicionalistas consideram que se está a assistir a um declínio na criação de fontes, mas, por outro lado, há quem afirme que se caminha para uma era em que se personalizam as fontes relativamente ao meio a que serão aplicadas.
Hoje, as mudanças tecnológicas que se operam na tipografia devem-se ao advento do computador pessoal. Os designers têm facilmente controle sobre os arranjos tipográficos que dantes dependiam de técnicas dispendiosas e de muito trabalho. A possibilidade de variações que o computador permite a baixos preços dá ao designer a possibilidade de experimentar até que a página esteja bem composta.

Mas, não foi apenas o computador que possibilitou a origem de novos conceitos estéticos. A evolução da cultura em geral é capaz de produzir uma atmosfera que estimula uma variedade de disciplinas criativas. Assim, os designers poderão aproveitar-se de conceitos, imagens gerados por disciplinas aparentemente descontextualizadas com o design.
Com a proliferação da multiplicidade de fontes que assistimos, algumas conseguirão ultrapassar o teste do tempo e outras serão apenas representação de um certo período sem grande relevo. No entanto, todas elas comprovarão que as leis de construção de uma tipografia não se inscrevem em tábuas de pedra.

A questão primária que se coloca é legibilidade da fonte. Mas, como afirma Zuzana Licko, da Emigré Graphics, ?é a familiaridade do leitor com a figura que se considera para a sua legibilidade?. A Baskerville, rejeitada em 1757 como feia e ilegível, é agora considerada uma das mais eficazes fontes para composição de grandes quantidades de texto.
O design de tipografia nesta era digital é cada vez mais astucioso, pessoal e subjectivo. O designer tipográfico Jeffery Keedy diz ? Sempre que pego num novo trabalho e procuro uma fonte, nenhuma delas tem voz para aquilo que preciso. Simplesmente não refletem as minhas experiências de vida. São reflexo das experiências de alguém, que não me pertencem.?

Um outro designer, Barry Deck, defende uma atitude provocativa da tipografia: ?devem provocar o leitor para que tenha um papel activo na construção da mensagem?. Os primeiros tipógrafos modernistas, por outro lado, procuravam reduzir a complexidade de forma a clarificar o conteúdo. No entanto, alguns novos tipógrafos preferem a ambiguidade. ?Se alguém interpretar o meu trabalho de uma forma totalmente nova para mim, só tenho que aplaudir?, diz Keedy. ?Isso significa que o trabalho tem vida própria e não se enclausura.?

Para alguns designers, construir fontes para uso pessoal, é uma forma de assegurar que os projectos de design gráfico contêm uma identidade e tom de voz próprios. Para Barry Deck, o ponto de partida para o desenho de um tipo não são as noções de legibilidade ou elegância mas sim a sua extrema subjectividade.

Esta realidade digital polimórfica possibilitou a criação de formas estranhas e híbridas assim com a Fudoni ou Canicopolus Script.

Com esta investigação acerca das novas possibilidades estéticas do computador surge uma reavaliação daquilo que não é arte e feio. Deck afirma inclusive que está interessado em tipos que não são perfeitos: ?Tipos que reflectem verdadeiramente uma linguagem imperfeita de um mundo imperfeito habitado por seres imperfeitos.? Veja-se a fonte ?Template Gothic?, que procura capturar um espírito próprio. Considere-se também Edward Fella que cria posters/flyers que quebram todas as regras de decoração tipográfica e de bom gosto de um designer. Ele é talvez o mais extremo exemplo de um designer como artista.

Fella é graduado pela Cranbrook Academy of Art, a fonte de alguns dos mais interessantes desenvolvimentos em nova tipografia. Alguns exercícios da Cranbrook são completamente tipográficos; a forma mais típica de concentração na relação entre texto e imagem. Cranbrook tem estado à frente na exploração da densa, e complexa camada de elementos que é uma das mais significativas características do novo design tipográfico. O método não consiste numa simples colagem de elementos mas assenta directamente numa cumplicidade com o conteúdo. O objectivo dos teóricos da Cranbrook é desconstruir, ou quebrar e expôr, a linguagem visual manipulada e os diferentes níveis de sentido implícitos no design da mesma forma que um crítico literário é capaz de desconstruir e descodificar a linguagem verbal de um romance. ?Quando uma abordagem desconstrutivista é aplicada ao design?, dizem os críticos americanos Chuck Byrne e Marta Witte, ? cada camada, assim como o uso da linguagem e imagem, tem uma performance intencional num deliberado jogo em que o observador pode descobrir e experienciar a complexidade oculta da linguagem.?
No entanto, a tipogra?a nem sempre é usada como forma de exploração do significado e sentido do texto.
As questões de legibilidade e expressão pessoal tornam-se mais pertinentes quando o objectivo é prender a atenção dos leitores ao longo de várias páginas. A Émigré Graphics, que tem a possibilidade de testar as suas fontes na própria revista, demonstrou a surpreendente legibilidade de algumas das mais bizarras e aparentemente fracas fontes, dando-lhes alguma familiaridade com a sua subtileza.

Para Phil Baines, é tão importante que a tipografia se dirija à nossa capacidade intuitiva e de percepção e estimulação dos sentidos bem como ao comprometimento do nosso intelecto.

Alguns projectos editoriais ambiciosos como a Émigré, o designer deve assumir o papel de editor e tipógrafo. Se tal não é possível, o autor e o tipógrafo deverão trabalhar em conjunto para estabelecerem e ampliarem o significado do texto.
No design gráfico como um todo, as estruturas formais parcem estar a ser preteridas em favor de uma espécie de contexto empírico para a página que procura criar uma nova relação entre a forma e um conteúdo específico de uma peça de trabalho única.

O Desconstrutivismo põe em dúvida e reorganiza todo o vocabulário tipográfico, a orientação da página, como deve ser uma página, e aquilo que uma fonte deve ser além de cumprir com a sua função básica de ser legível.
Rudy vanderlans e Tibor Kalman ao discutirem a legibilidade, indicam que existem outras formas de abordar a leitura e que a tipografia e o texto poderão ter outros propósitos além de serem legíveis.

Mesmo que possa parecer herético para alguns, os tipos podem ter propósitos ilustrativos, atmosféricos, interruptivos e expressivos além da mera legibilidade; que é aquilo que Sibyl Mohology-Nagy refere como a ?função não comunicativa do tipo.?

Um número da Émigré, intitulado ?Heritage?, é dedicado ao estado do design Suiço actual. Aí, Richard Feurer, fundador do estúdio Eclat, afirma: ?Eu não espero ser compreendido da mesma forma com que entendo a minha mensagem visual? A minha tarefa é gerar um efeito. Não se pode definir exactamente o quê, nem como, o observador vai pegar na mensagem visual. Há uma infinidade de formas de a olhar. A única coisa que posso fazer como designer é animar o leitor através da minha mensagem. Ele próprio deve agir, analisar, e reproduzir a mensagem visual para ele próprio.?
Enquanto que alguns críticos possam considerar essas ideias como uma transgressão da função do designer como clarificador da mensagem, não se pode negar que a leitura e percepção da informação visual é algo que se aprende com perícia e que pode ser alterada.

Alguns designers estão mais ligados do que outros ao mundo de ideias alheias ao design, e educadores e escritores estão a começar a entender e divulgar essas ideias nas aulas e em publicações de design. Assiste-se assim a uma introdução da teoria literária, semiótica, linguística e filosófica nos projectos de design.

Nesta minha pesquisa e redacção tive a oportunidade de referenciar visões de alguns designers relativamente à tipografia contextualizadas com a cultura actual e diferentes formas de pensamento. Em geral e como breve resumo, penso poder afirmar que a proliferação de inúmeras tipografias de formas diferentes e por vezes até estranhas são fruto de uma pluralidade cultural e eclética dos nossos tempos. Espero ter sido claro e conciso embora consciente de que tal assunto não se circunscreva a estas breve reflexão.

Data / Autor

2003-10-31 / Edgar Afonso




Bibliografia

N/D




Notas

N/D