Estética Relacional

Cultura na Contemporaneidade
Actualmente, deparamo-nos com o uso da palavra cultura em inúmeras situações de tal forma que este conceito nos aparece de certo modo indefenido. Para esclarecermos um pouco o seu significado temos de reconhecer “que a cultura é uma invenção ou, no mínimo, uma construção e artefacto histórico”1. Como palavra, estava praticamente ausente no século passado, sendo usado, geralmente, o conceito de civilização. No entanto, este termo entrou em descredibilidade em finais do séc. XIX e perdeu a sua força na sequência da I Guerra Mundial caindo mais tarde em desuso. A cultura assume a função de “articular, integrar e totalizar tudo o que existe em estado de dispersão e fragmento que caracteriza a nossa situação.”2 Aparece-nos hoje muito envolvida com a ideia de transformação do presente quer através da estética, da tecnologia ou de outros meios… Apesar da cultura ser um acontecimento temos de reconhecer a diferença, pois ela é o modo actual de controlar o acontecimento. Neste contexto, pretendemos aqui relacionar a cultura na contemporaneidade com a estética, a evolução tecnológica e outras inovações que caracterizam a actualidade com a consequente questão das ligações e desligações.

Ligações e Desligações
Já desde os gregos se pensava o conceito de ligação. Associado a um sentimento de insuficiência, este conceito surge ligado à ideia de extensão com o fim de estender a capacidade das nossas vidas. Para os gregos, o deus Eros servia para pensar as ligações. “Eros rege tudo: a ligação dos humanos à natureza, as formas de partilha do comum, os corpos, as terras e os bens; mas também as relações entre os humanos, a sua assimetria ou reciprocidade…”3 Como diz Clarence John Laughlin, “todas as coisas estão ligadas, quer vejamos as conexões ou não.” As experiências que nos constituem como humanos são consideradas como um interlaçar de fragmentos, pedaços… Deste modo, as ligações adquirem significado pois são aquilo que unem as nossas experiências e consequentemente fundamentam aquilo que somos. No entanto, apenas nos apercebemos das ligações quando nos vemos perante desligações, ou seja, quandro se quebra algum elo das experiências ou relações que vivemos quer com pessoas ou objectos ou mesmo quando o próprio modo de estabelecer essas relações se altera. Neste sentido, a crise moderna vem assim pôr em destaque a questão acerca das ligações. Entendamos aqui, o conceito “crise” não apenas como “fractura de um contínuo (…) mas também como aumento das eventualidades e das incertezas.”4 A crise manifesta-se através de processos incontrolados que poderão ampliar-se a si mesmos ou entrar em choque com processos antagónicos. “A permanente angústia com a desligação, que ameaça toda a ordem existente” faz-nos repensar a temática das ligações. “A modernidade é inseparável da desligação, começando pela desligação generalizada da matriz medieval.”5 A desligação caracteriza-se por um modo de romper e pôr em causa o que era evidente ou aceite como paradigma, dando origem a novas formas de ligações e, consequentemente a novos paradigmas.
Estamos imersos em ligações e tudo, desde palavras, imagens, corpos e objectos, ganham sentido nas relações que se estabelecem. As relações são assim um factor de extrema importância na nossa vida. Os momentos que encadeiam e ligam as experiências adquirem assim significado. Somos hoje levados a reflectir sobre as ligações e desligações que lhes estão intrínsecas. Apesar de algumas vezes ao longo da história ter emergido a questão das ligações, parece-nos hoje que algo deveras diferente está a emergir… Actualmente, as tecnologias digitais proporcionam um novo tipo de ligações. “Tais tecnologias estão a criar uma rede crescentemente complexa de ligações, que abarca já todo o planeta, criando nos indivíduos uma verdadeira compulsão à conexão.”6 Assistimos a um panorama em que “tudo está a ficar ligado: coisas, imagens, objectos, corpos e máquinas.”7 As ligações “estão a ser sobredeterminadas pela técnica.”8 e as experiências estão a ser recobertas por uma nova malha tecnológica.


Deslocações e Ligações
O ser humano sempre teve necessidade de se deslocar. Procurou “aperfeiçoar os seus métodos de deslocação em relação às invariáveis tempo e espaço com objectivos sempre idênticos: percorrer distâncias cada vez maiores num menor intervalo de tempo.”9 Já nesse sentido, o homem serve-se de uma prótese técnica (o veículo) como meio de comunicação a longa distância. No entanto, o homem tem também a capacidade de realizar viagens mentais superando para isso os limites da matéria. Podemos afirmar que já os nossos antepassados do paleolítico realizavam viagens mentais. Pressupõe-se que as pinturas subterrâneas pretendiam provocar um determinado estado de consciência. Essas pinturas procuravam “criar espaços para os ritos iniciáticos, de modo a que “os aprendizes” (…) pudessem passar por vivências surpreendentes: experimentar, através de viagens mentais, outras realidades (virtuais) que lhes trouxessem novos conhecimentos.”10
Também com a escrita e com a impressão tipográfica multiplicaram-se as possibilidades de transmitir estímulos para praticar as viagens mentais e físicas. Os mapas impulsionaram o processo de encolhimento do mundo. Os próprios relatos dos marinheiros “permitiam aos leitores empreender uma viagem mental por terras desconhecidas.”11
As tecnologias sempre tiveram influência no corpo do homem influenciando a sua psicologia e forma de socialização. O nosso esforço de categorizar o mundo associado a um desejo milenar de segurança fez com que emergissem tecnologias que, por sua vez, estão a determinar as experiências do homem. Com a ligação do corpo aos sistemas informáticos, novos efeitos surtem. Pôe-se em questão teorias como a de desincorporação e da emergência de novas formas de vida. Com as novas tecnologias digitais surgem novas formas de corporeidade e intersubjectividade. A dimensão erótica presente na relação do humano com as tecnologias digitais propõe uma fusão do corpo com a máquina. Algumas críticas afirmam “que se está a operar uma radicalização do dualismo cartesiano e teológico que admitia a separação entre o corpo e a alma”.12 A dualidade clássica de que corpo e alma são esferas distintas, apresenta-se imbuída nestes sonhos tecnometafísicos.
A história da humanidade caracteriza-se por uma incessante busca de novos mundos. As actuais ligações estabelecem-se principalmente devido à satisfação do desejo e prazer do sujeito. Face ao sedentarismo urbano, surge o desejo de se abandonar o local em que nos encontramos em favor do “distante”. “Imaginar é ausentar-se, é lançar-se para uma vida nova.”13 “As novas formas de subjectividade que hoje nos interpelam são inevitavelmente determinadas pela tecnologia da rede.”14 Face a esta necessidade de movimento, os actuais sistemas de comunicação propõem uma nova disciplina designada de “telemática” (termo que provêm de telecomunicação + informática). A telemática permite transportar imagem, som e informação com uma inter-relação de múltiplos níveis. “A superação, através da rede da barreira espácio-temporal inerente à matéria abre as portas à ambicionada televiagem: a transladação imaterial para qualquer sítio em tempo real.”15 No entanto, face à necessidade de viajarmos através do campo de dados, temos de nos despojarmos virtualmente do nosso corpo. A indeterminação da materialidade é uma das características que distingue o ciberespaço de outros espaços produzidos tecnicamente.O corpo torna-se imaterializado na rede, quando se passa apenas a tocar o teclado do computador e a olhar o seu ecran. Neste contexto, permanece imóvel enquanto a informação circula sem cessar. Deste modo, o espaço telemático permite presença e ausência ao mesmo tempo.
“A emergência do ciberespaço é o fruto de um verdadeiro movimento social.”16 A interligação, a criação de comunidades virtuais e a inteligência colectiva foram os três princípios que orientaram o seu crescimento. Tal crescimento corresponde a um desejo de comunicação recíproca e de inteligência colectiva. O ciberespaço visa um determinado tipo de relações entre as pessoas. O seu movimento social deve-se à sua verdadeira utilidade: a prática de comunicação interactiva, recíproca, comunitária e intercomunitária. A interligação dá origem a um universal por contacto e promove uma civilização de telepresença generalizada. Surgem assim, “comunidades virtuais construídas com base em afinidades de interesses, de conhecimentos, na partilha de projectos, num processo de cooperação ou de permuta, e isso independentemente das proximidades geográficas e pertenças institucionais.”17 As ligações técnicas promovem um novo modo de relações entre as pessoas. “Residir em ambos os mundos virtual e real, de maneira simultânea, e estar tanto aqui como potencialmente em qualquer outro sítio ao mesmo tempo, é conceder-nos um novo sentido de si mesmo, novos modos de pensar e apreender, que ampliam o que acreditávamos serem as nossas capacidade naturais, genéticas.”18 O nosso aparelho sensorial é ampliado pela cibernet que liga os nossos corpos num todo à escala mundial. É-nos assim possibilitado transcender os limites dos nossos corpos, segundo palavras de Roy Ascott. Podemos caracterizar a tecnologia do ciberespaço de tecnologia transpessoal, o que significa um despertar “da nossa capacidade de estar fora do corpo ou em simbiose com outras mentes.”19 Sem dúvida, estabelecem-se assim ligações entre diversos indivíduos e promove-se a troca de informação. Esta nova possibilidade de intercâmbios parece “permitir resolver quer problemas de solidão quer problemas de solidariedade.”20 Refira-se a este propósito que “falar com o outro, ultrapassando a sua ausência física é comum a todas as formas de comunicação à distância (carta, email, telefonema da rede fixa).”21 “O corpo é, por isso, o síntoma de resistência à unificação generalizada, uma vez que é o corpo que faz a unificação do vivido de cada um.”22 “A imagem do indivíduo “isolado frente ao ecrã” é bem mais uma imagem fantasmagórica do que o resultado de um inquérito sociológico.”23
“Uma comunidade virtual não é irreal, mas um colectivo mais ou menos permanente que se organiza por meio do novo correio electrónico mundial.”24 E que procura responder a um desejo de inteligência colectiva. Podemos considerar a cibercultura um meio técnico que procura satisfazer o desejo de construir um lugar social.

Data / Autor

2004-05-13 / Edgar Afonso




Bibliografia

GEADA, MARIA TERESA, Corpos Ligados: Mobilização e neutralização do desejo, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, lda, Junho de 2002.
GIANETTI, CLAUDIA, Ars Telemática ? telecomunicação, internet e ciberespaço?, Relógio d?Água editores, Lisboa, 1998.
LEVY, PIERRE, Cibercultura, Stória editores, lda, 2000.
MARCOS, MARIA LUCÍLIA, Ligação e Interrupção, in Revista de Comunicação e Linguagens, Tendências da Cultura Contemporânea, nº 28, Relógio d?Água editores, Lisboa, Outubro 2000.
MARCOS, MARIA LUCÍLIA, Relação sem relação: Tensionalmente, singularmente, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, lda, Junho de 2002.
MIRANDA, JOSÉ A. BRAGANÇA DE MIRANDA, Teoria da Cultura, edições Século XXI, lda, Lisboa, 2002.
MORIN, EDGAR, As grandes questões do nosso tempo, ed. Notícias, 4ª edição.




Notas

1 Miranda, José A. Bragança de Miranda, A Cultura como Problema, in Revista de Comunicação e Linguagens, Tendências da Cultura Contemporânea, ed. Relógio d?Água, nº 28, Lisboa, Outubro 2000, p 13.
2 Miranda, José A. Bragança de Miranda, A Cultura como Problema, p 19.
3 Miranda, José A. Bragança de Miranda, Teoria da Cultura, edições Século XXI, lda, Lisboa, 2002, p 131.
4 Morin, Edgar, As grandes questões do nosso tempo, ed. Notícias, 4ª edição, p 241.
5 Miranda, José A. Bragança de Miranda, Teoria da Cultura, edições Século XXI, lda, Lisboa, 2002, p 134.
6 Geada, Maria Teresa, Corpos Ligados: Mobilização e neutralização do desejo, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, lda, Junho de 2002, p. 459.
7 Miranda, José A. Bragança de Miranda, Teoria da Cultura, edições Século XXI, lda, Lisboa, 2002, p 144
8 Idem, p 147.
9 Gianetti, Claudia, Trespassar a pele: o teletrânsito, in Ars Telemática ? telecomunicação, internet e ciberespaço?, Relógio d?Água editores, Lisboa, 1998, p 125.
9 Levy, Pierre, Cibercultura, Stória editores, lda, 2000, p 120.
10 Gianetti, Claudia, Trespassar a pele: o teletrânsito, p 122.
11 Idem, p 123.
12 Idem, p 462.
13 Idem, p 123.
14 Marcos, Maria Lucília, Corpos Ligados: Mobilização e neutralização do desejo, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, lda, Junho de 2002, p 459.
15 Gianetti, Claudia, Trespassar a pele: o teletrânsito, in Ars Telemática ? telecomunicação, internet e ciberespaço?, Relógio d?Água editores, Lisboa, 1998, p 125.
16 Levy, Pierre, Cibercultura, Stória editores, lda, 2000, p 127.
17 Idem, p 133.
18 Ascott, Roy, A arquitectura da cibercepção, in Ars Telemática ? telecomunicação, internet e ciberespaço?, Relógio d?Água, Lisboa,
1998, p 163.
19 Idem, p 167.
20 Marcos, Maria Lucília, Ligação e Interrupção, in Revista de Comunicação e Linguagens, Tendências da Cultura Contemporânea, nº 28, Outubro 2000, ed. Relógio d?Água, Lisboa, p 442.
21 Idem, p 444.
22 Geada, Maria Teresa, Relação sem relação: Tensionalmente, singularmente, in A Cultura das redes, Revista de Comunicação e Linguagens, Relógio d?Água editores, lda, Junho de 2002, p 425.
23 Levy, Pierre, Cibercultura, Stória editores, lda, 2000, p 135.
24 Idem, p 135.