O Design e as Festas Populares

Todas as questões levantadas pela forma de comunicar visualmente as Festas da Senhora d’Agonia são reflexo de um descontentamento generalizado face a um objecto visual de comunicação. De entre todas as formas de informação visual, o cartaz surge como o meio privilegiado para comunicar um evento, manifestação cultural, artística ou mesmo um produto. Segundo Andrew Howard (2006), o cartaz foi sempre visto como uma oportunidade para o designer provar todas as suas capacidades. Num contexto popular, o cartaz das Festas d’Agonia do presente ano foi alvo de inúmeros comentários e considerações levando mesmo entidades  públicas e políticas a debruçarem-se sobre a forma de elaboração e selecção do mesmo bem como dos seus autores/criadores. Foram também  ponderadas possibilidades para o futuro. De algum modo, estamos perante um despertar para uma questão há bastante tempo adormecida na sociedade. Não é uma problemática que se restringe apenas a uma cidade ou distrito mas que abrange a forma como a cultura visual é popularmente considerada em Portugal.
Não interessa neste artigo estar a especular sobre a forma como o cartaz, o autor, o tema e a modelo deste ano foram seleccionados. Para isso teríamos de estudar o contexto e todas as suas condicionantes. “Impunham-se nesse caso vários imperativos de pesquisa, referentes quer ao ícone, quer ao autor (ou autores), quer ao contexto mais geral da sociedade.” (Laurent Gervereau, Ver, Compreender, Analisar as Imagens, Edições 70, Lisboa, 2004).
As temáticas mais interessantes a abordar dizem, essencialmente, respeito a questões como a ética profissional de um designer e a forma como o design gráfico é considerado tanto na esfera privada como na esfera pública. É certo que muitos cartazes na história do design foram criados por artistas, pintores, fotógrafos e mesmo arquitectos. Um dos grandes impulsionadores do objecto visual que é o cartaz, tal como o entendemos hoje, foi o pintor francês Toulouse-Lautrec. No entanto, o cartaz sofreu alterações na forma como é produzido, tanto devido a evoluções tecnológicas  como o advento da fotografia e do computador mas também na forma como é impresso ou divulgado. Morfologicamente, podem fazer parte do cartaz diversos elementos: fotografia, ilustração, composições fotográficas, composições geométricas ou abstractas, tipografia (letras que formam palavras, frases, textos), cor e o próprio papel e método de impressão ou divulgação. Todos estes elementos organizados de forma harmoniosa podem constituir um objecto de informação visual que prende e atrai a atenção de um observador. Assim, embora o cartaz seja uma necessidade de uma entidade pública ou privada, a sua execução deveria ser confiada a um profissional da área do design de comunicação/gráfico ou a uma equipa de profissionais (director criativo, designer, pintor, fotógrafo, modelo, cenógrafo, entre outros). A sua posterior aprovação poderia depender de um grupo do qual fizessem parte profissionais de diversas áreas mas, estando presente, obrigatoriamente, um ou mais profissionais da comunicação visual.
A prática da actividade do design, actualmente, assemelha-se à forma como a arquitectura foi tratada em tempos não muito distantes, em que profissionais sem a qualificação profissional necessária exerciam a actividade.  O exercício da prática do design abrange mais do que a simples habilidade na manipulação de software digital.
Para regulamentar a prática do design foram já dados alguns passos em Portugal, existindo neste momento três associações: Centro Português de Design, Associação Portuguesa de Designers e Associação Nacional de Designers. No entanto, sem regulamentação específica relativa a esta prática profissional resta alertar à consciência de todos a necessidade de ponderação e seriedade na forma como o design pode e deve contribuir para o fim a que se propõe. Existe, apesar de tudo, uma regulamentação de boas práticas no design assinada pela AIGA (Associação Profissional para o Design), instituição fundada em 1914.  Essa regulamentação de boas práticas (standards of professional practice) deveria inclusive ser do conhecimento de qualquer entidade que tenha de lidar com o design.
Apesar do cartaz das Festas d’Agonia ter sido o mais mediático, as mesmas considerações e comentários poderiam ser feitas relativamente a outros cartazes das festas populares das freguesias do Alto Minho. Geralmente executados por amadores de forma  voluntária e seleccionados por entidades mais ou menos numerosas sem a presença de um único profissional do design resultam em projectos visuais com qualidade aquém do desejável. Num momento em que Viana do Castelo se prepara para lançar uma marca turística, não seria também urgente reflectir sobre a necessidade de criar uma comissão que, de alguma forma, regulasse a forma como as festas populares são publicitadas? Mesmo que houvesse algum investimento acrescido na publicitação das festividades, esse valor não poria em causa a execução das mesmas. Uma prática mais consciente e profissional permitiria uma promoção digna das festas favorecendo a nobreza e carácter festivo das mesmas. Num momento em que o turismo é já uma grande aposta no Norte de Portugal, as festas populares e a sua promoção poderiam ser um elemento atractivo a considerar seriamente. Um esforço conjunto e consciente por parte de todos resultaria em benefício da região.
Além de diversas questões suscitadas foi, posteriormente, referida  a possibilidade de se optar por concurso público para a elaboração dos futuros cartazes das Festas d’Agonia. Porém, esta prática implicaria outros diálogos. No entanto, se for esse o futuro, deverão ser consideradas as boas práticas e colocadas algumas questões. Deverá um designer elaborar um cartaz com todas as despesas inerentes ao mesmo sob a possibilidade desse trabalho ser rejeitado? Deverá ser aberto concurso a alunos de uma escola/universidade/instituto sob pretexto de projecção social e consequente  enriquecimento curricular vedando uma oportunidade de trabalho a profissionais da área num actual contexto de instabilidade laboral? E, caso seja um concurso destinado a profissionais convidados, quais serão os critérios de convite? Integrará o júri alguém competente da área do design de comunicação? O papel de um consultor de design poderia aqui ser bastante útil.
Após estas considerações, outras questões se colocariam: será ponderado também o rigor na execução da brochura/folheto e demais elementos de comunicação visual que se estendem para além do cartaz e que reforçam e dão homogeneidade e força à comunicação?

Data / Autor

2010-07-15 / Edgar Afonso




Bibliografia

N/D




Notas

N/D