Suportes e territórios da ilustração contemporânea

A ilustração contemporânea movimenta-se por suportes e territórios diversos provenientes de uma história e emergência de novas formas de a interpretar. Mais do que enunciar esses territórios e suportes interessa reflectir sobre o modo como se foram configurando esses campos de trabalho.
Um caminho a solo poderia tornar a ilustração uma disciplina solitária. De facto, assistimos ao longo da história a uma junção de forças entre designers e ilustradores, apesar de alguns períodos se denotar alguma falta de diálogo. Ilustradores assumem as ferramentas do design e designers assumem a ilustração como meio para elaborar os seus projectos.
Ao longo do século XX, os métodos e estilos de ilustração mudaram de acordo com mudanças na arte e tecnologia. Enquanto no início do século XX a ilustração era vista como uma representação de situações, em meados do século o ilustrador, mais do que representar mimicamente algo, sente necessidade de expressar ideias. A ilustração conceptual surge como resultado do mundo editorial das revistas cujos temas se foram tornando mais complexos e críticos. Passa a conter em si significados e significantes conferindo personalidade às publicações. Segundo Steven Heller (2000), alguns ilustradores, em meados do referido século, desconstruíam as suas imagens como se fossem poesia.
Vários directores de arte, utilizando a ilustração em capas de revista, provaram que a ilustração pode influenciar a opinião assim como esclarecer um texto. O carácter conceptual da ilustração assume-se como um requisito na construção da mesma. Os ilustradores foram encorajados a reflectir na essência e nas entrelinhas de um texto. Eram contratados como tradutores de ideias verbais em ideias visuais. Steven Heller denomina-os de "co-autores". Durante os anos que se seguiram até cerca de 1980, a ilustração foi expandindo a sua variedade conceptual e estilística.
Hoje, com tantas formas digitais de manipulação da imagem, a ilustração desenhada e pintada é vista como uma relíquia da era pré-computador. Os meios digitais de manipulação de imagem tiveram uma profunda influência na forma como directores de arte e designers abordam a ilustração. Processos próprios dos ilustradores passaram a fazer parte de designers. (Steven Heller, 2000)
Os media digitais, dos quais se destaca o software Photoshop, tiveram uma profunda influência na forma como designers e directores de arte se relacionam com a ilustração. Em diversas fases da história assistimos a uma divisão entre o design e a ilustração, umas vezes mais acentuada, outras mais ténue. Esta disciplina deverá ser integrada no grande processo que o design envolve e o designer deverá entender que, apesar de ter de envolver todo o processo criativo, terá de encontrar uma plataforma de colaboração com o ilustrador.
Segundo Dugald Stermer (2000), a ilustração desapareceu de quase todas as publicações de massas e literatura. Enquanto que a ilustração encontrou um espaço seguro em campos como o cinema de animação, banda-desenhada e nas superfícies de skates, snowboards e todo o tipo de objectos da cultura jovem, repentinamente, parece ser algo que deixou de fazer parte da nossa história. Ficamos com a impressão de que o momento próprio da ilustração já passou. Suspeitou-se, de algum modo, que os computadores estavam a destruir o trabalho plástico prejudicando a qualidade dos resultados finais. No entanto, tal situação circunscreveu-se a um período em que se pretendia experimentar todo o tipo de manipulação digital. Novas formas de pensar o uso destes media foram impondo-se e criando novos paradigmas. Estar familiarizado com as novas tecnologias digitais, email e internet pode resultar em terrenos férteis para campo de acção do ilustrador. Questiona-se, porventura, se se deve abdicar de meios tradicionais de ilustração em favor dos media digitais. Felizmente, como nos diz Darrel Rees (2000), muitos ilustradores não necessitaram de fazer uma opção concreta uma vez que procuram conciliar estes dois campos.
Encara-se hoje o desafio de trabalhar para um meio que está em constante evolução. A internet está em desenvolvimento e novas tecnologias emergem. Surgiram ilustradores cujos campos de trabalho são as plataformas web. A ecleticidade de plataformas de trabalho permite ao ilustrador compreender os desafios colocados ao design.
De acordo com Bruce Wands é imperativo para os ilustradores manterem-se a par das novas tecnologias e do impacto que terão na actividade criativa e no modo como as audiências a percepcionam. O aparecimento dos tablets digitais, por exemplo, impõem novas abordagens.




Data / Autor

2011-01-19 / Edgar Afonso




Bibliografia

Heller, S. (2000). The end of illustration. In: The Education of an Illustrator, Steven Heller and Marshall Arisman, Allworth Press, New York, 2000.

Stermer, D. (2000). What the hell happened to illustration? In: The Education of an Illustrator, Steven Heller and Marshall Arisman, Allworth Press, New York, 2000.
Soar, M. (2000). It begins with “ill” and ends with “digital”: the riddle of illustration’s declining fortunes. In: The Education of an Illustrator, Steven Heller and Marshall Arisman, Allworth Press, New York, 2000.

Rees, D. (2000). Mutant futures: is obsolescence really looming? In: The Education of an Illustrator, Steven Heller and Marshall Arisman, Allworth Press, New York, 2000.

Wands, B. (2000). The influence of computers and the internet on illustration. In: The Education of an Illustrator, Steven Heller and Marshall Arisman, Allworth Press, New York, 2000.




Notas

N/D